Participei de muitos STS e reuniões incontáveis. Estive em São Paulo quando Mark Hughes esteve no Brasil. Foi um mega evento da Herbalife. Parecia um astro entrando, tamanha a euforia, quando entrou Hughes. O fanatismo dos seguidores da Herbalife é impressionante. Adorado como deus pelos herbalóides, o presidente fundador da herbalife, Mark Hughes, morreu aos 44 anos de overdose de álcool e Doxepin, segundo matéria da Folha Online.
Na empolgação fui viajando para vários lugares para participar de treinamentos (os STS). Na verdade os STS são todos iguais. Não existe uma novidade a ser dita de como fazer o negócio. O lance é levar vários patrocinados para manter o entusiasmo, e impressão de que seu sucesso vai chegar. E lógico tentar fazer contatos com pessoas destes lugares para aumentar sua rede.
Não é um negócio comum, isto é uma armadilha em que poucos, muito poucos, ganham. Lembra um pouco os sistemas das pirâmides. Uma parte muito pequena deste ‘negócio’ é venda de produtos, que você compra como supervisor com 50% de desconto. Aparentemente seu lucro é 100%, mas só o bruto. As despesas para girar este produto é muito alta, incluem contas de telefones fixo e móvel, panfletos, despesas para entregar o produto, etc. A outra parte é a principal, que é o recrutamento de pessoas. Está é a parte que dá mais lucro neste ‘negócio’. Em um dos meses fui campeão de recrutamento, e cheguei a fazer palestra no Sts, sobre como recrutar.
O segredo é convidar a pessoa para uma reunião de negócio, sem lhes falar do que se trata. Apenas enfatizar que é a melhor oportunidade do mundo para ganhar dinheiro. E tem muita gente ganhando, aí você conta a história de alguém da herbalife que se identifique com a pessoa convidada. Dias atrás, um amigo foi abordado por um conhecido, que lhe ofereceu uma oportunidade de negócio. A pessoa insistia para que ele fosse a uma reunião que aconteceria em um hotel da cidade, normalmente são os melhores hotéis e restaurantes da cidade, sem lhe falar do que se tratava. Obviamente meu amigo não foi, e avisou não está interessado nesta ‘oportunidade’, apesar da insistência do moço. Acabou alertando-o sobre o perigo deste ‘negócio’ da Herbalife. “É, mas a lavagem cerebral já estava feita, o moço não quis ouvir o alerta”, comentou meu amigo.
Lembrei de quantas pessoas tentaram me alertar, amigos e desconhecidos na rua, mas parece que a gente fica cego. Eu acreditava que esta era a melhor oportunidade do mundo. E Herbalife a melhor empresa do mundo. Cheguei a pensar: Como as pessoas não conseguiam enxergar isso?
Comecei a fazer partime, quando assustei só falava de Herbalife. Fui perdendo minhas representações, por um simples motivo: corria o dia e a noite atrás das pessoas para recrutar e vender os produtos. Não tinha mais tempo para nada, não tinha fim de semana. Meus amigos que não quiseram o ‘negócio’, corriam de mim. Outros começaram a me chamar de ‘mister Herbalife’. Eu achava que se perdesse as representações seria bom, porque aí faria o negocio em tempo integral, e certamente teria mais sucesso. Só que eu já estava fazendo em tempo integral há muito tempo. Com os lucros líquidos de vendas e comissões (os royalties) que eu estava recebendo era impossível se manter. Aí começou as dívidas, virou uma bola de neve. Aí meu amigo quando percebem que você já deu tudo o que tinha para dar, não tem como tirar mais nada de você, é hora do descarte.
Cheguei a ter uma rede com vários supervisores, e conseguir chegar a “Equipe mundial” ou “Word Team”, como chamam. A rotatividade de pessoas no negócio é impressionante, conhecia pessoas que estavam a mais tempo do que eu, e de repente elas sumiam, perguntava para meu patrocinador onde estavam? A resposta eram que elas estavam ficando doidas e tinham deixado de fazer Herbalife. Na verdade ficava imaginando como tantas pessoas que convidei não queriam este ‘maravilhoso negócio’.
Olha o tanto de gente na época, que na rua chegavam perto de mim e tentavam me advertir da arapuca que estava me metendo, não teve conta. Não adiantava nada. Tudo que as pessoas e amigos falavam para me advertir e tomar cuidado, não fazia efeito, pois minha cabeça estava feita.
Embora fosse magro como um palito, tentando vender produto para gordo perder peso. Era uma piada, mais como bom vendedor, vendi foi muito. Parecia um outdoor ambulante de tanto adesivo na pasta e boton com os dizeres: Perca peso agora. Pergunte-me como?
Certa vez eu e um colega, o Leo, da mesma rede, que fomos a São Paulo quando Mark Hughes esteve no Brasil, começamos a conversar sobre o negócio mais friamente. Começamos a analisar o negócio como empreendimento, que tem despesas e lucros. Ao montar esta planilha, a contabilidade não fechava, os gastos com telefones, reuniões, viagens, panfletos, anúncios e outros, eram maiores do que os lucros. Comecei entender que os malucos que iam ficando pelo caminho, muito mais de 95% das pessoas que entravam, na verdade tinham quebrado e se afundado nas dívidas, ou acordado a tempo e desistido antes de se afundarem.
Devo ter ficado neste negócio uns dois ou três anos, já não consigo lembrar direito. Mas quando cai em si, e vi a loucura que tinha feito, fiquei imaginando como pude ser tão ‘mirim do Bill’, como diz um amigo. E me deixar ser envolvido e enganado facilmente. Reconheço fui uma presa fácil. Agora aceitar que a culpa do meu fracasso é só minha, como pregavam nos sts, e que a Cia não tem nada a ver, aí não dá! Entendi que é quase impossível ter sucesso neste tipo de negócio, apenas os que estão no alto da pirâmide ganham, e permanecem no ‘negócio’. O resto trabalha como escravo para manter o sistema funcionando.
Busquei forças em Deus, para dar a volta por cima e reconstruir minha autoimagem. Reconheço que a ganância e o desejo de ficar rico, rápido e facilmente como prometem, foram as molas propulsoras que me fizeram presa fácil. E tem sido até o hoje o mesmo artifício utilizado para recrutar muitas pessoas.
Vale lembrar e dizer: A Herbalife não tem nada de ilegal, está tudo dentro da legislação brasileira. Eles vendem produtos à vista ou no cartão de crédito, para pessoas que ‘livremente’ se cadastraram para serem distribuidores independentes.
Aí entra quem quer. Por isso, resolvi escrever um pouco da minha história, como um alerta. A maioria das pessoas que encontro, que já mexeram com isso, e também perderam, tem vergonha de contar e não querem nem se lembrar disso. É claro, quem está ganhando dinheiro com a Herbalife, um pequeno grupo, e outras de marketing multinivel contam com isso, para continuar recrutando gente.
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Imagem extraída: http://arteprofana.files.wordpress.com/2008/12/herbaloide1.gif

